Autor questiona análise clássica dos acidentes

13/09/2013

Vasconcelos diz que a abordagem clássica não é suficiente para compreender, explicar e nortear práticas de promoção da segurança no trânsito.

Assessoria de Imprensa Perkons

Poliane Brito

Motivado a estudar sobre trânsito e transporte para propor um enfoque diferenciado à análise dos acidentes, o mestre em Engenharia Civil e doutor em Saúde Pública Paul Hindenburg Nobre de Vasconcelos publicou o livro “Violência e morte no trânsito – Associações ignoradas na prevenção dos acidentes com motociclistas”.  Em entrevista exclusiva à Perkons, ele fala sobre a insuficiência da abordagem que considera o homem, o veículo e a via e propõe uma alternativa.

Vasconcelos diz ser preciso atuar em questões estruturais e na dinâmica da sociedade e fazer mais que ações concentradas apenas nos aspectos comportamentais dos motociclistas.
Crédito: Arquivo Pessoal.

Perkons: Porque você questiona a abordagem clássica dos estudos sobre o trânsito?

Vasconcelos: O trânsito vem ceifando vidas estupidamente, especialmente de pessoas jovens no maior vigor de sua força de trabalho e com toda uma projeção de vida. Esses agravos à saúde não chamam mais atenção, fazem parte da violência banalizada que passa invisível. Seu incômodo só é notado quando matam na contramão, atrapalhando o trânsito, como disse Chico Buarque, contribuindo para mais quilômetros de congestionamento ou quando a vítima é um parente próximo. A explicação dos acidentes é reduzida à tríade homem, veículo e via. Na problemática em questão, essa abordagem não é suficiente para compreender, explicar e nortear práticas de promoção da segurança do trânsito. Porque não atenta para a busca de mudanças políticas, culturais, cognitivas e tecnológicas que promovam impactos nos perfis epidemiológicos. Essa forma de pensar remete à outra tríade: educação, fiscalização e engenharia de tráfego, que é mobilizada de forma acrítica e apenas favorece aos interesses de mercado e transforma a vítima em culpada.

Perkons: O que você propõe?

Vasconcelos: Na verdade, trato os agravos à saúde como um problema que envolve vários condicionantes multidimensionais e determinação social que configuram situações de vulnerabilidade, contrariando o modelo hegemônico que adota uma abordagem do tipo causa-efeito. Esta abordagem se limita a identificar correlações entre variáveis sociais e eventos de morbimortalidade entre diferentes grupos de população. Já minha argumentação fundamenta-se na visão sistêmica e no pensamento complexo. Elaborei um modelo teórico-explicativo, ainda preliminar, com abordagem ecossistêmica que considera quatro dimensões: a biocomunal, a consciência e conduta, a econômica e a ecológico-política. Preferi correr o risco de todas as limitações e controvérsias que isso possa acarretar por acreditar que a abordagem utilizada trará benefícios na elucidação dos processos de determinação social relacionados à morbimortalidade no trânsito. Nesse sentido a minha abordagem é original.

Perkons: Como o trânsito impacta no campo da saúde?

Vasconcelos: Vamos nos limitar ao trânsito de veículos automotores sobre pneus. Creio que a exacerbação do impacto do trânsito na vida dá-se com a mortalidade das pessoas por acidentes. Embora, não se saiba o número exato de pessoas mortas em decorrência dos acidentes de trânsito no Brasil, eu costumo mencionar que provavelmente a cada quinze minutos há uma vítima fatal e 17 outras entram nas emergências dos hospitais. Algumas delas carregarão consigo graves sequelas para o resto de suas vidas. Baseio-me no coeficiente de mortalidade de 19 óbitos por 100 mil habitantes.

Outro impacto é a intoxicação causada pelos automóveis. O trânsito de veículos movidos a combustíveis fósseis contribui para a poluição atmosférica, impactando na saúde ao levar a doenças do aparelho respiratório e da visão. Do excesso de ruídos emerge a poluição sonora que impacta no sistema auditivo. O solo também sofre os efeitos dessa poluição, que atingindo os mananciais de água pode originar danos à saúde.

De situações provenientes do trânsito emergem oportunidades de vulnerabilidade de lugar e de pessoas impactando na saúde coletiva. Por exemplo, as “barreiras” à passagem de pedestres. Com a falta de espaço é muito comum a inexistência de calçadas adequadas.

Essa intoxicação pelo automóvel culmina nos congestionamentos e no trânsito difícil. Nesse caso, conduz ao estresse, nervosismos e violências de toda ordem. Dando a liberdade na escravidão, a imobilidade na mobilidade, afeta principalmente o psiquismo das pessoas, impactando na saúde mental.

A problemática dos acidentes de trânsito apesar de não ser uma questão biomédica, entra na agenda da saúde pública com as morbimortalidades por causas externas e constam da CID 10. Nesse campo de conhecimento é estudada como violência.

Perkons: No seu livro você mostra que a frota de motocicletas cresceu e a mortalidade também aumentou. O que fazer para melhorar estes índices?

Vasconcelos: A questão dos acidentes de trânsito contempla interações de sistemas sócio-técnicos complexos e, sob essa ótica deve ser tratada.  Para prevenir os acidentes com motociclistas é preciso atuar em questões estruturais e na dinâmica da sociedade, nos processos de determinação social, muito mais do que em simples ações concentradas apenas nos aspectos comportamentais dos motociclistas. Não há como desvincular-se a morbimortalidade no trânsito de questões do uso do solo, desenvolvimento urbano, planejamento de transportes, do psiquismo inseparável da espécie humana e tantas outras questões que influenciam na conformação dos acidentes. Penso, também, que não se atua nessas questões porque isso vai contra a lógica do mercado, produção e consumo cujos interesses são alheios à dimensão da proteção e cuidados para todos. E, essas associações são ignoradas, por desconhecimento ou má-fé.

Perkons: Você questiona as tríades homem-veículo-via e educação-fiscalização-engenharia. Por quê?

Vasconcelos: Apresento as limitações de cada uma delas por considerar que são abordagens insuficientes quando se lida com questões complexas como a violência no trânsito. A primeira, por exemplo, poderia metamorfosear-se em indivíduo-sociedade-espécie.

Por exemplo, após mais de dez anos de vigência do Código de Trânsito Brasileiro e da Política Nacional para Redução das Morbimortalidades por Acidentes e Violência e, mais recentemente, da lei 11.705/08, não se teve uma redução significativa na morbimortalidade por acidentes de trânsito. Segundo os estudiosos Bacchieri e Barros, autores do artigo Acidentes de trânsito no Brasil de 1998 a 2010, houve muitas mudanças e poucos resultados. Dessa forma, o país não está na direção correta. É o que sugere o aumento do número de mortes e a manutenção das taxas de hospitalizações.

Propostas do autor para mudar a realidade  que temos no trânsito:

- Reavaliar o processo de crescimento econômico que, propondo um consumo infinito, exaure os recursos finitos do planeta;

- Rever o processo do uso do solo, determinante para a mobilidade e fluidez das pessoas em seus deslocamentos urbanos, favorecendo a mobilidade das mesmas igualmente e não apenas daquelas que estão em automóveis;

- Limitar a especulação imobiliária e privilegiar o público sobre o privado;

- Definir programas educacionais, inclusive em escolas de habilitação para o trânsito, voltados para a cooperação em detrimento da competitividade.

- Formar educadores com uma nova lógica que contemple os contrários dentro do princípio estruturante do pensamento complexo.

- Sensibilizar a população quanto aos perigos que o uso da motocicleta traz, evidenciando que o barato, em todos os sentidos, sai caro à vida;

- Desestimular, por intermédio de uma maior tributação, a crescente produção e comercialização de motocicletas, por se tratar de um veículo comprovadamente perigoso, de elevado custo social e econômico, até que, para sua utilização, o contexto ambiente-condutor esteja adequado;

- Utilizar o ambiente de trânsito como protótipo de um modelo de cidadania e direitos humanos para todas as pessoas, independente de classe social e situação econômica;

- Reinventar o relacionamento das pessoas, podendo-se utilizar para isso um modelo de aprendizagem com o ambiente do trânsito como pano de fundo;

- Implementar condições que viabilizem às pessoas a utilização de modos de transportes mais seguros, coletivos e públicos;

- Reavaliar a atuação do Estado com relação à determinação social da saúde e da vida às leis que preveem a sua responsabilização por um trânsito seguro. Além disso, disponibilizar informações que permitam descrever a situação dos acidentes de trânsito de forma criteriosa e realizar um diagnóstico que possibilite soluções mais adequadas, adotando-se uma ampliação conceitual na análise dos acidentes;

- Elaborar novos estudos de âmbito interdisciplinar para aprofundar a explicação e compreensão dos acidentes de trânsito utilizando o pensamento complexo.

Serviço:
Violência e morte no trânsito – Associações ignoradas na prevenção dos acidentes com motociclistas. Paul Hindenburg Nobre de Vasconcelos – paulnobre@cpqam.fiocruz.br; Editora Universitária UFPE.

 

Compartilhe: