Ergonomia, segurança viária de duas rodas e acidente de trabalho in itinere

19/10/2016

Por André Garcia*

Nas palestras que tenho ministrado em grandes empresas, tenho ouvido muita reclamação dos modelos de veículos de duas rodas que tiveram o botão da buzina invertido com a seta.

Em 2013, na edição 228 da Revista da Moto!, escrevi o artigo “Cadê a buzina?”, onde faço uma crítica à alteração bisonha, realizada pelo maior fabricante de motos do Brasil, a Honda.

Infelizmente, a Yamaha seguiu o péssimo exemplo no modelo MT07, e a Harley Davidson, com seus punhos onde não se acha nada (setas, lampejador de farol alto, etc.), demandando um incrível esforço psicológico.

Mas pasmem! O assunto parece tolice, mas ergonomia é assunto e estudo cientifico, especialmente, na Segurança do Trabalho, onde se estuda Ergonomia Física, Ergonomia Cognitiva e Ergonomia Organizacional.

Vamos simplificar e trazer para a realidade do motociclista ou motoqueiro, já que moto cresce como meio de transporte entre trabalho-residência-trabalho.

Ergonomia é um termo de origem grega; “ergo” significa trabalho e “nomos” significa leis ou normas. Portanto, ergonomia é relacionada ao entendimento das interações entre seres humanos e outros elementos ou sistemas, e à aplicação de teorias, princípios, dados e métodos a projetos, a fim de otimizar o bem-estar humano e o desempenho global do sistema.

Do ponto de vista da Segurança do Trabalho consiste no conjunto de disciplinas que estuda a organização do trabalho no qual existem interações entre seres humanos e máquinas.

E o que isso tem a ver com moto? Tudo! Motocicleta é uma máquina.

Notem que praticamente em todos os textos de avaliação de produto/motocicleta que faço, menciono a tal pilotagem intuitiva (ergonomia cognitiva), que consiste em você pilotar podendo focar o trânsito sem a necessidade de desviar o olhar para encontrar, por exemplo, o botão da buzina em caso de extrema necessidade.

Imagine a inversão do pedal do acelerador do automóvel. Ou ao invés de acionar a seta na vareta da direita, mude para esquerda. E se a buzina saísse do centro do volante?

Ergonomia cognitiva é um processo mental, é a percepção, memória, raciocínio e resposta motora conforme afetam as interações entre seres humanos e outros elementos de um sistema, aqui, no caso, a motocicleta. Tudo é relevante ou deveria ser quando um fabricante do nada inventa um padrão que coloca em risco o condutor.

Há mais de 30 anos a buzina sempre ficou no punho esquerdo, sendo o primeiro botão de baixo para cima. Tornou-se padrão em praticamente todas as marcas de motocicleta.

O estudo da ergonomia cognitiva inclui o estudo da carga mental de trabalho (interprete: pilotar a moto), tomada de decisão (buzinar, dar seta, iniciar a frenagem), desempenho especializado, interação homem-máquina, estresse e treinamento, conforme se relacionam a projetos envolvendo seres humanos e sistemas; entenda o homem montado na moto em pleno trânsito, administrando riscos.

Hoje as marcas que respeitam a padronização, propiciando uma pilotagem onde não é necessário tirar os olhos da via para buzinar, dar seta e acionar a pisca alerta são: Dafra, Suzuki, KTM, Ducati, BMW (exceção ao modelo G650GS, saindo de linha, que é invertido e tem pisca de alerta no painel), Kawasaki, Triumph (com exceção ao pisca alerta, que fica no painel em todos os modelos), Yamaha (com exceção ao modelo MT07, TMax e MT09, cujos botões de pisca alerta ficam no punho direito), Indian, Suzuki e Ducati.

Portanto, quando você está na via pública pilotando sua motocicleta, está fazendo uso, óbvio, da cognição. Acionando uma buzina, a seta sem tirar os olhos da via, fez uso da ergonomia cognitiva.

Por fim, a tal ergonomia tem total influência não só na Segurança do Trabalho, mas também na Segurança Viária, afinal se naquele milésimo de segundo você, ao invés de buzinar você dar seta, pode ser fatal!


*André Garcia é palestrante & consultor de Segurança de Trânsito, motociclista, e advogado especializado em Gestão e Direito de Trânsito.

 

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