Desenvolvimento urbano e mobilidade

13/08/2018

Por Dirceu Rodrigues Alves Jr*

É incompatível a relação do desenvolvimento humano, urbano, automotivo e mobilidade nos grandes centros. Vias bastante comprometidas por falta de manutenção, que datam de construções antigas, mal planejadas, e que hoje não atendem à demanda. Calçadas e guias que deixam os mais frágeis expostos a máquinas extremamente perigosas. Estreitas, irregulares, com desníveis, buracos, rebaixamentos concorrendo para o acidente na caminhada do pedestre. Isso propicia o avanço de um veículo comprometendo aquele que se desloca a pé e que muitas vezes tem que caminhar pelo asfalto. Cresce a indústria automotiva, a modernização faz implementar e ampliar dimensões de veículos. Caminhões, carretas, coletivos gigantes passam a ocupar pistas inadequadas. Surgem os “bitrem, tritrem” e tão logo novos modelos estarão transitando por aí. Avenidas, rodovias e ruas com pistas que não acompanham o crescimento das máquinas. Espaços mínimos entre um e outro não permitem manobras para desviar de obstáculos acabando por se tocarem advindo o acidente. Plano Piloto amplia o mercado imobiliário mantendo as vias de acesso de anos atrás, sobem prédios de múltiplos andares, um colado ao outro, chegam lojas comerciais trazendo maior população e quantidade de veículos. Plano urbanístico não projetado nos leva a crer que o interesse econômico supera a qualidade de vida, o bem-estar social e tranquilidade.

A violência no trânsito é consequência dessa falta de planejamento e interesse comercial. Quando falamos em violência no trânsito estamos a falar da lentidão, engarrafamento, tensão, estresse, agressão física e gestual, horas perdidas e compromissos não honrados. Ocorre ainda agressão ao meio ambiente produzindo efeito estufa, chuva ácida, aquecimento global e comprometendo o ecossistema. Tudo isso levando a doenças, conflitos, distúrbios comportamentais, mortes e sequelas. Esse comprometimento leva a óbito 43 mil cidadãos e 360 mil incapacidades temporárias e definitivas para trabalho, necessitando cuidados especiais e permanentes.

Como se tudo isso não bastasse, conhecendo estudos científicos que mostram causas de acidentes nas quais a velocidade é dominante, onde o cidadão não tem como hábito o respeito às regras de trânsito, e as autoridades passam ao “achismo”. Deliberam absurdos. A velocidade precisa ser reduzida porque a cinemática do trauma mostra que quanto maior a velocidade mais graves são as lesões dos ocupantes. Não lembram que a chegada de um politraumatizado do trânsito num pronto socorro tem custo elevado, que inclui interrupção do trânsito, assistência pré-hospitalar, transporte terrestre ou aéreo, policiamento e ações de homens da CET. Devo citar estudo realizado na Inglaterra (Transport Traffic Britânico) para mostrar consequências da velocidade. Com 32 Km/h produz 5% de óbitos, 65% de lesionados e 30% de ilesos; com 48 Km/h produz 45% de óbitos, 50% de lesionados e 5% sobrevivem; e com 64 Km/h leva a óbito 85% e 15% lesionados.

Dados envolvendo vias comprometidas, veículos cada vez maiores e velozes, pistas estreitas esburacadas, calçadas impróprias com piso irregular, mercado imobiliário crescendo, plano urbanístico sem ascensão; tudo concorrendo para dificultar a mobilidade. Necessitamos de atitudes drásticas para atingirmos uma mobilidade segura.

 

*Dr. Dirceu Rodrigues Alves Júnior
Diretor de Comunicação e do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da ABRAMET
www.abramet.com.br
dirceurodrigues@abramet.com.br
dirceu.rodrigues5@terra.com.br

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